Preta Gil: a mulher que fez da dor um ato de resistência pública

Mais do que enfrentar um diagnóstico agressivo, Preta escolheu compartilhar com o país o processo íntimo e doloroso de viver com câncer. A perda dos cabelos, das forças, da autonomia e de partes significativas da própria identidade não foram escondidas. Ela expôs, com lucidez e dignidade, os lutos que antecedem a morte — e que são pouco nomeados.Um corpo político, mesmo em tratamentoDesde antes da doença, Preta já ocupava espaço como um corpo político: mulher negra, gorda,… 

Mais do que enfrentar um diagnóstico agressivo, Preta escolheu compartilhar com o país o processo íntimo e doloroso de viver com câncer. A perda dos cabelos, das forças, da autonomia e de partes significativas da própria identidade não foram escondidas. Ela expôs, com lucidez e dignidade, os lutos que antecedem a morte — e que são pouco nomeados.

Um corpo político, mesmo em tratamento

Desde antes da doença, Preta já ocupava espaço como um corpo político: mulher negra, gorda, artista, livre, sensual. Sempre enfrentou a gordofobia, o racismo estrutural, o machismo da indústria do entretenimento. Com o câncer, o embate ganhou novas camadas.
Mesmo fragilizada fisicamente, ela seguia dançando, sorrindo e cantando — não por negação, mas por resistência. Foi um ato contínuo de afirmação de vida.

A doença e os lutos silenciosos

Preta expôs o que a maioria silencia: os lutos diários de quem adoece. A perda da imagem de si mesma como alguém saudável. A interrupção de planos. A dependência. A dor constante.
Mas talvez sua maior força tenha sido mostrar que fragilidade e força podem caminhar juntas. Ela não romantizou o sofrimento — mas também não permitiu que ele a desumanizasse.

Relacionamento abusivo em meio à dor

Durante o tratamento, Preta também tornou pública a separação do então companheiro, Rodrigo Godoy. Revelou que vivia um relacionamento abusivo e foi traída em um dos momentos mais críticos de sua saúde.
A exposição da dor afetiva em paralelo ao adoecimento físico reverberou entre milhares de mulheres que enfrentam violências emocionais justamente quando mais precisam de acolhimento.
Foi mais uma de suas coragens: não proteger o agressor. Não calar por conveniência. Não fingir normalidade.

Uma mulher real, até o fim

Preta não se encaixou na imagem da paciente ideal, nem na da mulher “forte o tempo todo”. Ela foi real: chorou, desabafou, teve dias de angústia e de luz. Escolheu ser inteira, mesmo aos pedaços.
Falou sobre saúde, autoestima, sexualidade, fé, amizade, família. Fez da própria jornada uma plataforma de humanização — e, sem querer, criou um espaço para que outras mulheres também pudessem existir em suas dores sem vergonha.

Legado que fica

Com sua morte, o Brasil perde uma artista, mas ganha uma herança emocional e simbólica: a urgência de cuidarmos da saúde integral das mulheres.
Preta Gil deixa a música, mas deixa também uma narrativa de luta pública contra o adoecimento físico e afetivo.
Foi artista até o fim — não só no palco, mas na forma de viver.
E nos ensinou que morrer não é o fim quando se viveu com tanta verdade.

“Preta não será lembrada apenas pelas canções, mas pela forma como nos ensinou a cantar a vida mesmo quando o corpo pedia silêncio.”

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